6 de jun de 2011

Conto: A auto-escola

Um vídeo que tenho muita vontade de fazer pra vocês - e que a minha preguiça ainda não me deixou - é sobre o dia do meu psicoteste do Detran. Fato muito bizarro aconteceu naquele dia, mas não quero adiantar nada, pois ainda ei de vencer a minha preguiça. 
Pensando nisso e no fato de que eu  geralmente não sei bem o que postar por aqui além dos meus vídeos, resolvi postar um conto que escrevi que permeia uma temática afim. É um pouco extenso mas, espero que gostem.                                                                                                                                                                   Samy ;)

Como meta de 2011 eu estabeleci que iria dirigir mais. Não que eu não dirija. Sim, eu evito. Ao máximo. Mas eu dirijo! Muito do fato de não dirigir tanto é que não tenho noção nenhuma de espaço, logo não sei estacionar. Então se não tem uma vaga muito mas muito fácil mesmo eu não estaciono. Aí eu boto o carro aonde José? Na cabeça? Quando é pra estacionar eu começo a suar, tremer e se eu ouvir uma mínima buzina eu surto. Tá, nem tanto, mas eu fico nervosa. Fui na internet olhar o telefone de uma empresa que haviam me indicado. Queria saber o preço, mas descobri que eles só dão o preço depois de fazer uma avaliação pra ver qual o pacote você necessita. Ok, liguei pra marcar. 
- Alô, oi moça, bom dia, que horário vocês tem disponível para avaliação. 
- Qualquer um.Como você conheceu a empresa?
- Humm, tem pra amanhã?
-Tem. Como você conheceu a empresa?
- A então pode marcar. Alguém me falou de vocês.
-Hum.
Enfim, lá fui eu para auto-escola de gente que tem medo de dirigir. 
Chego e já não gosto da atendente toda no tipinho "só tô te atendendo por que se não fico sem salário no fim do mês". Acho que foi a mesma do telefone. O local parecia mal cuidado e mal iluminado. Mas  tudo bem, preencho uma ficha e logo no início me dou conta que já tenho quase 5 anos de carteira. CINCO ANOS! Contabilizando o tempo que tenho habilitação e as vezes que eu dirigi, acho que equivale a 1% de direção nesses anos habilitada. Não mais do isso. 
Ok, eu tô aqui pra mudar essa estatística - pensei com meus botões. Continuei preenchendo. A última parte da ficha é pra marcar qual as emoções e sensações que tenho dirigindo. Medo de causar acidentes, sim, medo de não saber o que fazer, sim, calafrio ou calor, sim, tremedeira, sim, vontade de chorar, não, er.. sim, nervosismo, sim... Tá, marco logo sim em tudo, facilita o trabalho. Pronto, terminei. Alôo, terminei! A atendente fingia não ter se dado conta ou então me ignorava abertamente mesmo. 
Um gordinho entra no recinto e ela magicamente resolve se dar conta de que eu acabei e passa  minha ficha para ele. Moço simpático até, mas parecia um pouco nervoso. Ele colocou um powerpoint pra rodar e começou a falar mecanicamente como se tivesse decorado o texto. Estágio um, estágio dois... Parecia bem interessante tudo que ele me falou. Aí ele me pergunta se eu tenho alguma dúvida. Não senhor. Me dou conta que geralmente eu nunca tenho dúvidas quando me perguntam. Então o gordinho diz que vai me encaminhar para a avaliação. Epa, como assim? Aquilo alí não era a avaliação? Pelo visto não.
Saio da sala e sento de novo na frente da atendente esperando alguma instrução. Ela fica ouvindo a música eletrônica dela e nem liga para a minha existência. Um homem moreno e alto entra e dita cuja me apresenta. Ele era o instrutor que iria me avaliar. Instrutor? Isso me lembra as aulas práticas da auto-escola, onde eu tinha que.. er... dirigir.
Isso mesmo eu teria que dirigir, me avisou o instrutor enquanto caminhavamos até a garagem ao encontro do carro. Frio na barriga. Que carro será que terei que dirigir? Vou ter que enfrentar o trânsito? Calma, você pode fazer isso! Não pode?
Chegando no carro confirmo o que eu mais temia: o carro era de câmbio manual. Até parece que eles iam ter um câmbio automático, reclamo com os meus pensamentos. Se eu só dirigi 1% nesses últimos quase 5 anos, nem metade deles foi com câmbio manual. Eu não faço nem ideia que pedal serve para quê. Ferrou!
Para a minha sorte eu não iria dirigir no trânsito. O instrutor assumiu o volante e disse que iria me levar para um lugar mais tranquilo. Lá vamos nós. O carro parou ele abre a porta. Ok, minha vez de assumir volante. Frio na barriga. Eu sento, ajeito o retrovisor, os espelhos laterais estão ok. Tenho que por o sinto, penso eu, mas então olhos para o pedais. E agora? 
-Deixa eu ver se ainda me lembro quem são vocês. - falo para os pedais.
Lembro que no câmbio automático o acelerador é no pedal da direita, então começo.
-Você deve ser o acelerador, você a embreagem e você o freio.
Todo paciente o instrutor me lembra que a ordem é acelerador, freio e embreagem. Ok, menos chances de eu bater o carro agora. Piso no freio e começo a lembrar em voz alta do passo a passo que decorei para o teste do Detran. Piso no freio e embreagem, ponto morto, giro a chave, coloco a primeira, tira o pé do freio, vai acelerando e tirando o pé da embreagem,  liga a seta , mas alguma coisa.. ah sim, olhar se vem alguém.
A primeira não entra, eu tento de novo. Pelo menos o carro não morreu, constatei. De repente me dou conta que estou andando. Passa a segunda, passa a terceira. Já estou me sentindo em casa. Vou conversando com o instrutor no caminho. Diminuo nos quebra molas, aumento depois deles. Vamos virar à esquerda dou a seta. Acabou.
Foi só isso? Ora, até que não fui tão mal. Ele diz que achou que eu fui bem, meu problema é mais falta de prática. Ele me lembra que eu não coloquei o cinto. Droga, eu até lembrei. Tudo culpa dos pedais. Pedais maus! Ele diz que não me achou nervosa nem nada do que eu marquei na ficha e eu respondo que é por que não tive que estacionar.
Trinta aulas. Meu problema é só falta de prática e ele quer que eu tome  TRINTA aulas! Ok, quanto mais eu praticar melhor, me consolei. O instrutor retoma o volante e voltamos para o prédio. Eu sento na frente da atendente e junto de outro rapaz que já estava lá. A mocréia, digo, atendente pergunta "E aí, gostou?" olhando pra mim depois pra o rapaz ao meu lado. Eu balanço a cabeça afirmativa e ela vira toda pra ele como se estivesse dizendo "estou falando com ele". Eu aguardo e aguardo e aguardo, até que o gordinho entra novamente e avisa a ela que eu já fiz a avaliação que agora é a parte dela. Como se já não tivesse ficado óbvio. 
A dita cuja pergunta " E aí, gostou?" Mas antes que eu pudesse responder ela continua falando mecanicamente. O pacote de 30 aulas é tanto, parcelamos 5 vezes de tanto, 4 vezes de tanto, 3 vezes de tanto... ou a vista que é tanto. Temos também o pacote de 25 aulas e ela recomecou, 5 vezes de tanto, 4 vezes de tanto.... Antes que ela pule pro pacote de 20 aulas eu pergunto se ela pode me dar por escrito pois vou ter que analisar melhor em casa e depois dou uma resposta. Ela imprime, me entrega e eu saio feliz da vida por saber que ainda sei dirigir um carro manual e por saber que não vou ter que ver a cara daquela infeliz nunca mais na minha vida. 

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